“Eles nunca estiveram na minha situação, por isso não entendem.”

É fácil vivermos em função dos outros. Talvez penses que esse não é o teu caso. Mas, naturalmente, valorizamos o que os outros pensam de nós. Isso é normal! O oposto, o ser indiferente ao impacto que as nossas atitudes possam ter sobre os outros, é que é considerado um desvio de personalidade, a que se chama psicopatia ou sociopatia.

Reação dos Outros

No entanto, as tuas emoções e ações não podem depender do que os outros pensam sobre ti. Não só isso cria uma pressão intensa sobre ti, como é totalmente subjetivo. Se prestares atenção, é provável que te apercebas de um comentário positivo acerca de qualquer coisa que fizeste e de, acerca da mesma atitude tua, outra pessoa fazer um comentário destrutivo. Afinal, essa tua atitude foi positiva ou negativa? Baseado apenas nos comentários dos outros, será difícil perceber. O mesmo acontece, por exemplo, com pais que têm filhos pequenos e que num momento lhes proíbem algo e noutra altura, permitem e nem olham.

A reação dos outros é subjetiva. Depende não só do que realmente acham do que fizeste, mas também do momento, do seu humor, cansaço, etc.

Não Entendem!

Uma das “dores” que encontro com frequência, é a incompreensão dos outros. O facto de eles não perceberem a tua intenção, de não conseguirem ver o que estás a tentar fazer ou a dor que estás a sentir, pode ser um poderoso destruidor da resiliência.

Mas na verdade, isso acontece porque tu permites. Os outros são importantes para nós e devemos buscar o seu bem, mas precisamos de permitir que eles não entendam.

Como podes lidar com isso? Precisas de perceber que as pessoas são diferentes, estão em fases da vida diferentes, têm capacidades de ver e de ouvir, diferentes das tuas. Muitas pessoas não percebem coisas que para ti são óbvias. Precisas de ficar em paz com isso. Aliás, o processo de desenvolvimento de resiliência, implica esse “abrir mão” da opinião do outro — se tudo vai bem, se todos te compreendem, não precisas de desenvolver resiliência.

Egoísmo e Endurecimento Emocional?

O objetivo da resiliência não é o egoísmo nem o endurecimento emocional. Mas precisas de estar em boa forma interior, para poderes ter um impacto positivo não só na tua própria vida, mas também na dos outros. A resiliência aumenta a tua capacidade de análise e de planeamento da forma de agir, aumentando a probabilidade de (e habilidade para)  conseguires resolver o problema. Dessa forma, reduz a probabilidade de seres “derrotado” pelo problema que estás a enfrentar.

Esta atitude tem consequências, no teu relacionamento com os outros. Quando és muito amargo, muito coitado, muito Calimero (mesmo que tenhas fortes razões para isso) estás a colocar uma pressão muito grande sobre os outros. Os teus relacionamentos são mais caracterizados pelo peso emocional e muitas vezes também por exigências silenciosas, por cobranças, que acabam por danificar profundamente esses relacionamentos… que tanto desejas e dos quais precisas. Ao desenvolveres a tua força interior, podes reduzir essa pressão sobre os outros e melhorar, mesmo muito, a qualidade dos teus relacionamentos.

Isso ajuda-te também a olhares para fora com uma atitude mais ativa, mais disponível e capaz de ajudar os outros. E faz com que a tua dor, na realidade, fique mais pequena.

Equilíbrio

Creio que a nossa vida deve ser uma constante busca do equilíbrio. Nós temos tendência a viver nos extremos. Por isso, precisamos de desenvolver uma atitude consciente e intencional de buscar o equilíbrio.

A forma como a tua resiliência vai tocar os outros, também precisa de ser gerida por ti. Por um lado, não podes viver só em função dos outros — isso vai enfraquecê-los, torná-los menos autónomos, menos capazes, mais egoístas. Mas a tua resiliência, a tua capacidade de estares bem apesar de…, vai beneficiá-los.

A 2ª Milha

“Andares a segunda milha” pelo outro, fazeres o bem, ires para além do que se espera, é uma decisão tua. E não deves ter a expectativa ou a necessidade de que eles percebam. Isso é uma gestão que precisas de fazer dentro de ti.

Mas, mais uma vez, o equilíbrio. Se és uma pessoa que tem facilidade em se dar, precisas de procurar perceber se a “segunda milha” é boa para o outro ou se vai alimentar nele atitudes negativas… ou até se é algo que ele não quer.

A tua resiliência é um trabalho dentro de ti, muitas vezes um caminho solitário e não compreendido. É algo que desenvolves de forma intencional. E nesse percurso, precisas também de buscar o equilíbrio entre resiliência e egoísmo ou mesmo excesso de altruísmo.