O suicídio não intencional, é talvez o maior risco de um estado depressivo.

 

A depressão vai criando uma visão distorcida, mas que não é percebida como tal. Ela bloqueia a capacidade de ver a realidade; o deprimido perde a capacidade de ver seja o que for de positivo. Às tantas, já não sabe como é viver; já não se lembra como era quando tinha uma vida “normal”. Isso parece-lhe algo longínquo e irreal, como se tivesse sido a vida de uma outra pessoa e não a sua.

 

Não acredita

Ele não acredita que haja alguma coisa positiva, que a vida tenha algo de agradável, que mereça a pena viver. Não acredita que seja possível sair do seu estado. E nem acredita que haja alguma realidade diferente daquilo em que ele está. O caos emocional passa a ser sentido como a única realidade. Vive numa caverna escura e sombria, onde não vê mais ninguém. O fio que o liga à vida, vai-se tornando cada vez mais frágil.

 

Como mudar de imagem?

“Se eu aparecer outra vez na escola, o que vão dizer?”, perguntava-me o Rodrigo na nossa primeira sessão, depois de estar meses a faltar às aulas com depressão.

Quando a depressão se prolonga, deixa marcas. Cria um equilíbrio, uma forma de funcionar que, embora doentia, é a forma que a pessoa conhece, o seu lugar “seguro”. E isto acontece não só dentro de si próprio, mas também aos olhos dos outros. A pessoa deprimida fica com uma determinada imagem, seja na família, na escola ou no local de trabalho. O voltar ao seu antigo ambiente, depois de um longo tempo de baixa, é aterrorizador – enfrentar os colegas, os comentários, as perguntas; ter que explicar e repetir as mesmas coisas vezes sem conta; estar à mercê das reações dos outros. A perspectiva de enfrentar o seu antigo ambiente é demasiado assustadora, os riscos demasiado altos, o custo impossível de suportar.

 

Zona de conforto

Por isso, a depressão pode tornar-se uma zona de conforto. É dolorosa, mas já a conheces, é previsível, sabes como funciona. Na sua visão distorcida, é fácil o deprimido acreditar que é mais seguro ficar assim, ou mesmo que essa é a única opção possível. A depressão acaba por se tornar como que um vício, algo que amarra a pessoa.

E nessa zona de conforto distorcida, o suicídio vai sendo visto como fazendo parte, como não negativo, até como não totalmente real; como se o caminhar naquele modo de zombie, lhe permitisse viver num cenário não real, sem consequências reais. E neste estado de alma, o suicídio não intencional torna-se um risco.

 

Suicídio

Algumas pessoas falam em suicídio, tentam suicidar-se. Aí, é mais fácil prevenir. Há um risco, mas tem-se consciência disso.

Mas muitas das pessoas que correm esse risco, não pensam em suicídio, nunca seriam capazes de o fazer. Não há uma intenção. A dor emocional, ou o vazio da alma, podem tornar-se tão intensos que fica fácil dar um pequeno passo, não planeado nem intencional, mas que pode não ter retorno – dar um passo em frente quando o comboio vai a passar, ou quando está à beira de um precipício, debruçar-se mais na janela quando o chão lá em baixo parece estar a chamá-lo, deixar a faca desviar-se uns centímetros e cravar-se-lhe nos pulsos, acelerar a fundo numa curva perigosa,… Basta apenas um segundo, um momento em que a dor se sobrepõe ao racional, um descuido, uma breve distração, ou apenas um estado interior de zombie.

 

Risco

Muitas vezes sou procurada por este tipo de pessoas, a maioria nem está em depressão, mas que tomaram consciência deste quase tombar para o precipício. Pode ser um momento de angústia, de falta de esperança, de desinteresse em estar vivo ou não, ou apenas uma situação banal, uma imagem, um som, que “encaixa” numa parte profunda da pessoa e a puxa; pode ser um puxão súbito, em que a pessoa quase dá um passo em frente, ou algo muito mais lento e subtil, como se tivesse ficado preso num encantamento, em que a pessoa se vai aproximando do perigo sem ter bem a noção disso.

Como um anzol que estivesse a puxar a pessoa sem que a sua mente se aperceba. E de repente a pessoa apercebe-se, sobressalta-se, dá um passo atrás, o coração a bater loucamente como se tivesse estado em perigo de vida – só que esteve mesmo.

A pessoa em depressão, normalmente está demasiado mal para tomar consciência deste tipo de impulso, ou que ele possa representar um perigo, ou isso nem lhe interessa.

 

A tendência é desvalorizar este impulso interior. Mas muitas pessoas percebem o risco e levam-no a sério. A não intenção de suicídio, não é proteção para que ele não aconteça.

 

O que podes fazer?

Se estás a lidar com uma pessoa deprimida, fica atento a estes sinais, a momentos em que já nada lhe interessa, em que pareça haver um total desapego à realidade e à vida. É esse desapego que pode levar a um passo para o abismo.

Quando recebes a notícia do suicídio de alguém próximo de ti, não fiques chocado, não penses que a pessoa foi fraca, ou egoísta (por ter optado por “escapar”, deixando cá os outros a lidar com as consequências). Pode não ter sido suicídio; apenas falta de cuidado, de prevenção; falta de consciência do risco real. Muitos suicídios (creio que a maioria) não são intencionais. Tenho trabalhado com muitas pessoas que viviam com este impulso, com estes “filmes na mente” em que visualizam coisas terríveis a acontecer. São pessoas normais, que fazem o seu trabalho, que não têm nenhum diagnóstico psiquiátrico, mas que perceberam que esse impulso podia vir a ser um risco.

 

Já alguma vez sentiste, por exemplo quando o comboio vai a passar, um impulso interior para dares um passo em frente? Se isso te acontece, não desvalorizes esse impulso – o risco é demasiado alto. Um dia, esse gesto pode levar-te a passares a linha em que já não há retorno.

Se este tema te preocupa, contacta-nos. Na LisboaCounselling encontras um ambiente de segurança e empatia, onde podes esclarecer as tuas dúvidas e perceber como reduzir riscos e desativar esse impulso.

 

Só tens uma vida, e que é preciosa. Cuida dela!