O teu filho parece ter atitudes de boicote sempre nas piores alturas. Mas, muitas vezes, aquilo que parece uma atitude de boicote, de desafio ou de falta de educação, é apenas a sua forma instintiva de lidar com a ansiedade.

  • Antes de ir para a escola, ele faz uma birra porque não quer vestir o casaco, calçar os sapatos, tomar o pequeno-almoço,…
  • Vai para uma festa de anos super entusiasmado, mas quando chega lá não quer entrar.
  • Fica enjoado ou com dores de barriga quando tem que fazer algo diferente.
  • Tem medo que os pais morram num acidente ou numa tempestade.
  • No primeiro dia de escola ou em dias de teste, tem sintomas psicossomáticos: dores, enjoos, tonturas, etc.

Conheces algumas destas situações? Creio que todos nós, que temos filhos ou lidamos com crianças, passamos por elas.

 

Lidar com o comportamento

Certamente que é importante lidarmos com comportamentos que estejam errados. Há algumas correntes que defendem que a criança seja deixada crescer por si própria e encontrar o seu próprio caminho, mas crescer em auto-gestão não é eficaz, nem a nível de resultados nem de felicidade. As crianças que crescem sem regras, acabam por ter mais dificuldade em se adaptar à vida real da nossa sociedade, por terem menos capacidade (ou interesse) em fazer a diferença de forma positiva e têm muito menos capacidade de ser felizes.

Então, é importante lidarmos com o comportamento das nossas crianças e ajudá-las a viver regras básicas de ética, respeito, etc. No entanto, precisamos de ter a noção de que muitos dos comportamentos “errados” da criança, não são pelo comportamento em si, mas um sintoma, uma forma de ela reagir à ansiedade.

 

Papel do cérebro e das hormonas

A ansiedade gera uma reação neurológica e fisiológica em todos nós. O nosso corpo produz maiores quantidades de cortisol e outras hormonas negativas, que vão afetar as nossas emoções, o nosso comportamento e mesmo o funcionamento do cérebro. Nos artigos deste site, encontras vários que falam dos nossos bioquímicos e do seu funcionamento, em http://www.lisboacounselling.com/index/

Debaixo de pressão, o cérebro, assume uma espécie de “tema único” na sua agenda, que faz com que quase toda a sua energia e foco sejam direcionados para lidar com essa situação que está a provocar o stress. O enorme e imediato aumento do cortisol e adrenalina, vai bloquear o funcionamento racional do cérebro, levando-o a reagir de forma impulsiva, seguindo um padrão automático (que precisa de muito menos energia e de zero bom senso). Por isso, nós tendemos a reagir da mesma maneira perante situações de stress – o que leva muitos pais a desesperar, porque já lidaram com a mesma situação tantas vezes, já disseram tantas vezes as mesmas coisas ao filho e ele continua a reagir sempre da mesma maneira.

Por um lado, isto tira a esperança a muitos pais: “já tentei tantas vezes e ele faz sempre igual”, “não consigo que ele mude” – mas, por outro lado, facilita imenso um trabalho de mudança. Ou seja, se as reações se repetem, sempre muito parecidas, isso permite-nos planear como ajudar a criança na próxima vez que acontecer.

 

Fight, flight ou freeze

Há diferentes tipos de reação automática e impulsiva, perante uma situação de stress ou “ameaça”.

Fight (Atacar) – aqui podemos encontrar a criança que grita, que faz uma birra, que se recusa (a calçar, a comer, …). Há uma grande tensão, mesmo a nível muscular.

Flight (Escapar) – neste tipo de reação, está a criança que foge a correr, que fica a mexer os pés e as mão, a coçar-se, a portar-se como tolinho, etc.

Freeze (Bloquear) – este é o modo em que a pessoa bloqueia. A criança pode ficar especialmente quieta, agarrar-se a um dos pais (o que não estiver a ralhar com ela), ficar a tremer, falar muito baixinho e de forma quase ininteligível. Este falar baixinho, por exemplo, pode ser muito irritante para o adulto que, ao ralhar com ela, só vai fazer com que fique mais ansiosa, bloqueie mais, faça “pior”.

 

É indispensável perceberes que a reação é apenas o sintoma do que está a acontecer dentro do cérebro. É uma reação automática e, na maioria das vezes, inconsciente. Esta é a forma como todos reagimos ao stress, não só as crianças mas também nós, adultos. Quando o teu filho está a fazer uma birra, como reação a algo, tu também entras em stress e começas a reagir, no teu estilo de reação, que pode ser igual ou diferente do do teu filho. Mas esta reação, impulsiva, não vai resolver o problema; na verdade, só vai agravá-lo e tornar cada vez mais forte esse padrão automático de resposta.

 

Para conseguirmos reduzir o stress, temos que usar estratégias que funcionem. No próximo artigo, vou partilhar algumas ferramentas práticas que podes começar a usar.