Lidar com o que está a acontecer no cérebro e nas hormonas da criança, é fundamental para conseguires baixar a sua ansiedade e mudar o seu comportamento. Ela não vai conseguir pensar ou agir com lógica enquanto estiver no modo de reação fisiológica aguda – fight, flight ou freeze.

 

O que não funciona?

Tentares argumentar com a criança, dizeres-lhe para não ter medo da situação que a está a assustar, não vai resultar. Castigá-la (porque a ansiedade pode parecer desafio, desobediência ou mau comportamento) só vai aumentar o problema; só vai agravar a sua tendência natural, seja para lutar, para escapar ou para bloquear. Certamente já viste isto acontecer muitas vezes; quanto mais ralhas ou tentas controlar a situação, pior a criança reage.

 

Como podes ajudar?

  1. Ajuda-a a desacelerar

Numa situação de stress, todo o metabolismo da criança fica acelerado, desconfortável e descontrolado. Ajudá-la a desacelerar, vai ajudar a reencontrar o equilíbrio interior e a reduzir a produção de cortisol.

Para isso, ajuda-a a respirar muito devagar, encher pelo nariz e soprar pela boca, muito lento. Podes usar algo para facilitar, por exemplo soprar uma vela sem a apagar, ou soprar para o dedo e sentir com atenção o toque do ar no dedo.

  1. Cantar com a boca fechada (humming).

Pode ser apenas um zumbido, como a abelha, ou entoar uma melodia simples que a criança conheça bem, muito lento, tomando atenção à “frase” que a melodia faz.

Este exercício ajuda a começar a desacelerar também o ritmo das ondas cerebrais.

  1. Agarra a mente

Debaixo de stress, a mente acelera e o pensamento fica em piloto- automático. É importante ajudá-la a sair dessa espiral impulsiva e tóxica.

Para isso, ajuda a criança a focar apenas num sentido e faz esse “percurso” juntamente com ela. Por exemplo, fechar o olhos e escutar e dizer os sons que ouve, cada um deles; passar a mão por diferentes superfícies e comentar o que sente das textures (duro, fofinho, frio, rugoso, etc); cheirar algo e comentar, ou dar-lhe a cheirar alguma coisa com os olhos fechados para ela descobrir o que é. O objetivo é promover a tomada de consciência, o sair das áreas profundas e instintivas do cérebro, para o neo-córtex, que lhe permite começar a gerir as suas emoções e comportamento.

  1. Estreita o foco

Usa uma atividade lenta, tranquila e não exigente; por exemplo, colorir um desenho ou usar uma pasta de modelar.

  1. Usa o corpo, de forma consciente

Exercícios de força, como prancha, abdominais, carregar algo pesado, como uma pilha de livros.

Exercícios de equilíbrio – De pé, levanta um dos pés, levanta o joelho e volta a baixar, devagarinho; ou um pouco mais desafiante, fazer círculos com o pé que está no ar, sem perder o equilíbrio.

Cruzar a linha do centro – Passar as mãos ou os pés para o outro lado do corpo, ajuda a fazer um reset do cérebro. Por exemplo, andar cruzando os pés, fazer o moinho de vento com os braços.

O objetivo é que o exercício seja suficientemente desafiante para agarrar o foco da criança, mas sem ser demasiado desconfortável (quando a criança está ansiosa, não precisa de mais desconforto).

  1. Faz um plano

Criar um plano de SOS, ajuda a criança a entender e gerir a ansiedade, em vez de reagir pelo impulso negativo.

Podes fazer um cartão para pôr no frigorífico ou no quarto da criança. Escreve algumas das ferramentas que funcionam com ela, muito simples, só uma ou duas palavras que ela perceba rapidamente o que é para fazer e que a ajude a recentrar a mente.

  1. Cria um ritual para lidar com situações de ansiedade habituais

Por exemplo, quando os meus filhos eram pequenos e estudavam música, no fim de terem uma audição ou um recital, íamos comer pizza.

Pode ser algo muito simples, mas que para ele se torna aquele “lugar seguro” depois da tempestade; e mesmo uma cumplicidade entre vocês, em que o entendes e ajudas a resolver, em vez de te chateares ou tentares que ele seja “mais forte”.

  1. Ajuda-o a refletir (depois do problema acabar)

Isto ajuda-o a aumentar a resiliência e fortalece-o para as próximas situações. Podes colocar e discutir com ele questões do tipo:

  • Uma coisa que te ajudou a resolver o problema? Ou a diminuir a ansiedade? A ficares mais tranquilo, mais confortável?
  • Uma coisa que acabaste por gostar, ou achar engraçado, nesta situação ou atividade?
  • Quando estás stressado, o que reparas em ti? Como costumas sentir-te e reagir?
  • O que podes planear para fazeres da próxima vez, para te ajudar a ficares menos ansioso, ou a lidares melhor com a situação?

 

Estas são apenas algumas ideias práticas, que podes usar para ajudar a tua criança a lidar melhor com a ansiedade. Procura ir percebendo quais destas ferramentas o ajudam mais.

 

A ansiedade é natural e existe em todos nós. Mas pode ser gerida para nos fortalecer, em vez de nos endurecer ou prejudicar. Empenha-te em continuares a usar estas ferramentas, para conseguires criar um novo padrão, uma nova forma de o cérebro reagir a situações stressantes.