Counselling foca, essencialmente, em capacitar as pessoas envolvidas para gerarem mudança, em si mesmas e na situação. Este trabalho não está dependente da colaboração de ambas as partes. Na maioria das vezes, apenas a vítima está disposta a fazê-lo.

 

Trabalho com o agressor

Ao longo desta série de artigos, terá parecido que eu não acredito muito na recuperação do agressor. É verdade! A maioria deles não está disposta a mudar.

No entanto, com aqueles que estão dispostos a fazer algo para manter o seu casamento, o trabalho de Counselling envolve o treino de estratégias de redução de stress e de formas mais positivas de lidar com a frustração e a ira, assim como skills de comunicação que reduzam a sua agressão verbal e tornem a interação entre os dois mais leve. Para além disso, há um trabalho a nível de responsabilização, desenvolvendo a noção de que ele não é “mesmo assim”, de que as suas atitudes não são culpa do seu temperamento, ou de outra pessoa. O livre-arbítrio é uma característica de todos os seres humanos. Portanto, ele pode “escolher” ter outro tipo de atitudes. Se o problema é não conseguir ter as atitudes que quer, em counselling pode desenvolver essa capacidade.

 

Trabalho com a vítima

A minha intervenção com as pessoas que estão a viver uma situação de VD, começa por ser no sentido de as fortalecer e ajudar a voltar a ser “pessoas”. Quem está a viver este tipo de situação, vai perdendo a noção de dignidade do ser humano; vai-se tornando num destroço. Então, precisamos de trabalhar áreas como:

  • auto-imagem e auto-confiança;
  • fortalecimento físico, mental e emocional;
  • organização pessoal e reestruturação interior
  • aumento da capacidade de análise e discernimento
  • resiliência
  • competências de resolução de problemas e tomada de decisões – a vítima precisa de desenvolver a capacidade de tomar as suas próprias decisões, de sair do modo de manipulação mental em que está
  • estratégias para prevenir, evitar ou impedir o abuso – sempre numa abordagem de baixo-risco, planeando e dando cada passo de forma gradual e sem colocar a vítima em risco de provocar uma crise ou de agravar a sua situação
  • autonomia – aumentar a sua própria capacidade de planear formas de ação, prever possíveis consequências e planear para lidar com essas consequências
  • apagar a imagem interior de vítima – Como já referi, no artigo sobre o perfil da vítima, um dos aspectos mais graves é a “imagem” interior de vítima que ela desenvolve, que outros agressores detectam e que faz com que haja uma altíssima probabilidade de ela voltar a entrar numa situação de violência pessoal, seja em casa, no trabalho (bullying) ou em qualquer outra situação. Então, um dos focos de “investimento” em Counselling, é o apagar desta imagem, de forma a quebrar este ciclo de violência e permitir que estas pessoas possam ter uma vida normal, em vez de continuarem a ser um alvo à mercê de predadores.
  • cura interior e a libertação do poder que o agressor tem sobre o pensamento e as emoções da sua vítima. Mesmo depois de mudar a situação de agressão ou de sair dela, a mente da vítima continua amarrada nesse tema, impedindo-a de ter uma vida plena. Essa libertação mental é um processo, mas é possível.

 

Gestão dos filhos

Em muitas das situações de VD há filhos, os quais são invariável/ usados pelo agressor como elemento de pressão, chantagem, manipulação, ou são mesmo diretamente agredidos. Isso aumenta muito o impacto do abuso e reduz a capacidade e poder da vítima para fazer seja o que for. Ela tenta não fazer nada, para proteger os filhos – mas o paradoxo, é que ela não consegue proteger os filhos ficando quieta; eles vão sofrer o impacto de crescerem nesta situação. Então, a atitude de proteção, tem que ser planeada e mais eficaz.

Em counselling, trabalhamos competências específicas para a capacitar a proteger os filhos de possível abuso e orientá-los no seu desenvolvimento pessoal – como educar filhos de forma positiva, num ambiente onde tudo é anti-ético? Como evitar/impedir que eles imitem as atitudes do pai/mãe agressor? Como ajudá-los a lidar com as suas próprias emoções: ira, sensação de injustiça, depressão, medos e fobias? Como os ajudar e desenvolver ética, a pensarem com a sua própria cabeça, a desenvolver bom senso (em vez de raiva e azedume)?

 

Gestão dos riscos

Os riscos são reais e podem ser da própria vida, seja da vítima, seja dos filhos.

Em counselling, esta é uma área de base, especialmente nas primeiras fases do nosso trabalho em conjunto. A vítima aprende a identificar ou prever possíveis riscos e a planear a forma de agir em cada situação. Todas as ferramentas e estratégias que ela passa a usar, são implementadas de forma gradual e, sempre, observando o resultado, o impacto que isso possa ter nas atitudes do seu agressor.

A vítima aprende a desenvolver autonomia nesta gestão do risco. Ao contrário do que possa parecer, isto não vai colocar mais pressão sobre ela. Antes pelo contrário, pois vai substituir o medo constante por uma capacidade e eficácia muito maior de se proteger a si e aos seus filhos. E em vez de viver no medo generalizado de qualquer atitude do seu agressor, aprende a identificar sinais de perigo e a distinguir mais uma crise igual às outras, de momentos que possam ser de risco real.

Em situações mais graves, sempre desenvolvemos “planos de emergência”, com todos os detalhes necessários para uma saída imediata em caso de perigo.

 

Saída pré-planeada

Tenho trabalhado com pessoas que, apesar de estarem a viver numa situação muito grave, decidem manter-se nessa relação por causa da idade dos filhos. Para muitas mães, é impensável deixar os filhos sozinhos com o pai durante um fim de semana inteiro (que é o que o tribunal pode ordenar em caso de divórcio). Algumas destas pessoas (mulheres ou homens) decidem divorciar-se quando os filhos tiverem idade para escolher com quem querem estar. Isso significa que podem decidir divorciar-se daí a 10 anos ou mais.

Aqui, o trabalho de counselling é ajudá-las a que esses anos não sejam apenas de esperar e aguentar, mas que sejam anos de crescimento e planeamento. Para além de todas as áreas que já referi anteriormente, é feita e planeada toda a preparação para a saída, nas áreas em que isso for necessário (desenvolvimento da autonomia financeira da vítima, se necessário começar a criar um Plano B, o planeamento dos vários aspetos práticos em relação a si própria e aos filhos).

 

O que podemos conseguir?

Em muitas situações, conseguimos que a agressão acabe. Quer começando a trabalhar com ambos os membros do casal (em sessões separadas), quer começando apenas com a vítima, podemos conseguir que a situação melhore o suficiente para que a convivência seja possível e que o abuso acabe. Tenho trabalhado com muitos casais em violência doméstica, que conseguem vir a ter uma boa relação e acabar com as agressões.

No entanto, isso depende essencialmente do tipo do agressor. Na artigo 4/8 desta série, podes ver os diferentes tipos de gravidade e a possibilidade da sua mudança. Na maioria das situações, só percebemos o tipo de agressor quando começamos a investir na mudança, uma vez que as cenas podem ser muito idênticas nos diferentes tipos.

De qualquer forma, quer haja ou não mudança no agressor, a vítima pode não só desenvolver as suas capacidades, o seu bem-estar, sair do abuso, como mesmo aprender a crescer através dessa situação.

A filosofia de base do meu trabalho é o Post Traumatic Growth – a capacidade não só de sairmos do problema, de nos curarmos dos traumas, mas de virmos a crescer nesse e através desse processo. Ao contrário de outras abordagens que focam mais nos traumas e que acham que uma pessoa que passou por situações demasiado graves vai ficar marcada, traumatizada para toda a vida, que há pessoas que já estão “desqualificadas” para serem felizes, que já sofreram demasiado, já passaram para lá da linha, já nunca poderão vir a ter uma vida feliz ou equilibrada… Ao contrário dessas abordagens, eu acredito que qualquer que seja ou tenha sido a tua situação, tu podes sair disso, podes desenvolver a tua cura, podes libertar-te das emoções e das memórias que te atormentam. E podes mesmo crescer e tornar-te uma pessoa muito melhor e com mais capacidades do que se não tivesses vivido esse horror.

Na nossa vida, às vezes há desertos, e alguns deles são terríveis. Muitas pessoas pensam que resiliência significa conseguir sair desse “deserto” e chegar ao outro lado ainda vivo. Mas eu (e todos os que seguem a linha do Post Traumatic Growth) acredito que tem que ser muito mais do que isso. Se eu vivi no horror, durante anos, e apenas consegui sair disso, esses anos da minha vida foram perdidos, um desperdício, foram apenas um massacre. Pelo contrário, eu posso usar a minha dor e todo o processo de saída dela, para desenvolver competências, me fortalecer, me tornar mais capaz… e no final desse percurso eu ser muito mais do que se não tivesse tido esse problema.

Atenção, não é masoquismo! Não queremos ter problemas para crescermos através deles. Mas se um problema nos cai em cima, podemos transformá-lo no nosso “ginásio” pessoal para desenvolvermos o que não conseguiríamos sem esse problema.

 

Qualquer que seja ou tenha sido a tua dor, tu não estás desqualificado/a para ser feliz!

Eu acredito que a mudança na tua vida é possível, seja qual for a tua situação!